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Passando pela Aguanambi, ouvi um som que vinha de você, ou pelo menos me lembrei como se fosse. Tinha um gosto de quintal de futura casa e retratos de um galinheiro que ficaram fechados dentro do seu carro, às nove horas de ninguém dormir. A aliança, joguei fora, a que a gente nunca teve. A casa, eu construí, e até moramos lá por um tempo, cada um no seu pensamento. Separados, assim. Você chegou a desenhar o rio, que era feito de café e formava um tabuleiro com as pedras que poríamos. Eu até tirei uma foto sua, posando bem ao lado, alado no seu rio, mas a câmera era ruim e embaciou toda a imagem outrora nítida. Você virou foi um anjo, já em nome, distante daquele chão invisível pelo matagal a que(m) eu tanto me apegava. Eu nunca havia dito que aquela foi a primeira vez que bati retrato, porque se não você pediria pra que eu tentasse de novo. Mas eu não queria tentar. Eu queria lembrar daquele dia em que passeamos por ideias assim, como se sem os óculos. Bem quase de propósito joguei a câmera no café. Aquela foi a primeira peça do nosso tabuleiro. Foi a única. Ficou em Confins, com fim.

A música surgia de mim mesmo. Não tinha palavras, mas queria dizer, e era a substância do grito que a turba lançava na Paixão. Queria dizer o mundo transcorrido, de delírios levados na cabeça e no coração, de aguerridas crenças condenadas à fogueira. Queria dizer uma catástrofe, um terremoto, um aluvião, uma morte geral, um fenômeno psíquico ou físico nunca visto que me revelaria a aporia de minha transfiguração. Mas que novo horror esperava por meu vício de saber?
RASCHELLA, Roberto. “Se tívessemos vivido aqui” in: Os outros - narrativa argentina contemporânea.

Ficava admirada olhando o dia mudar de cor, pegando vento nos tijolinhos amontoados no quintal. Lá mesmo dormia, lá mesmo acordava. Ele sempre estaria diferente e isso me causava um medo enorme. Gente mudando, roupa apertando, a Rockita perdendo a graça e a Tassiane sendo vista só na nossa foto de sandália da Xuxa igual, porque a memória só deixava lembrar da letra bonita dela. O fantasma do tempo é o único que tento enfrentar, de todos os que me abismam. Era isso e passar com ele ou era não saber o que fazer. A gente sabe? Durmo, para tê-lo comigo. Depois que a gente cresce, as escolhas forçam a mudança. Não dá pra ver o tempo passar, não dá pra perceber o novo cabelo branco, o dos vinte e cinco, e nem pra aprender o que você sempre quis. A gente lembra sempre que queria ser grande, quando criança. O ciclo não acaba. A gente, adulto, espera a velhice, pra poder ter a vida que sonhávamos ter aos 22, aos 32, aos 42. A gente, velho, tenta ser o Hemingway, mas forja um convite da ACL, que sempre achamos o lixo, só pra enganar estudante de jornalismo que vem te entrevistar quando você já for um personagem insano da cidade que sempre teve o sonho de se ver sem carro, sem gente.

E naquela tarde, na beira do nosso rio, eu vi você, com olhos de cetim, a não me entrever, ou a quase. Eu era só um vulto em branco e preto, bêbado e amargo. A cada passo que eu dava, pra mais perto parecer, reluziam aquelas vozes ácidas do que você já disse um dia, ressoavam as imagens ásperas do que você viveu um dia. E o que me faz ir diminuindo de tamanho, o que me faz ficar centímetro por centímetro mais longe do céu é que eu não estava lá, a não ser como uma sombra de vida paralela, longe, desimportante. Você era uma, preenchida de flores e ondas e cores e gato. Eu ali já era o que eu fui, bancando a leveza de ignorar desamor. Hoje, elaboro um nó na garganta, pra não dar na vista o quilo de aura que levo, minha e sua, do que foi. Do que foi, sempre. Engasgo o que vem, porque andar pra frente carece de a gente ficar vestido só de pele, de alma aberta, pra desbravar e abrir caminho de sol. Olho pra trás. O caminho está todo ali, mas eu queria que as folhas abandonadas pelas árvores cobrissem tudo. Não sei dizer em azul, mas essa memória pesa em minhas pernas. Aos poucos, vou me acaçapando mais, com não querer, até que, quando consigo atravessar o dito rio, não há mais nada que se possa ver.

Do silêncio

Numa recolha de fábulas dos fins da Antiguidade lê-se este apólogo:
‘Os Atenienses tinham por hábito chicotear a rigor todo o candidato a filósofo, e, se ele suportasse pacientemente a flagelação, poderia então ser considerado filósofo. Um dia, um dos que se tinham submetido a esta prova exclamou, depois de ter suportado os golpes em silêncio: ‘Agora já sou digno de ser considerado filósofo!’ Mas responderam-lhe, e com razão: ‘Tê-los-ia sido, se tivesse ficado calado.”
(…)

Giorgio Agamben
Colorless green ideas sleep furiously
Noam Chomsky

“Saudade é o predomínio do que não está presente, diga-se, ausente”. Eu discordei. Ao que sempre me pareceu, saudade é a presença incansável de algo que não é outra coisa senão intensa presença. É a confirmação de que você não pode ir embora de mim. Saudade é você me existindo. Saudade é você por perto quando você não está. É o eterno você em mim.

Na verdade, não há esse lugar o qual eu possa chamar de casa, Maga. Você sabe que não tenho mais memórias, mas mesmo se eu as tivesse, talvez ainda pensasse que não o achei, o lugar, ou talvez achasse mais.

Eu sinto essa solidão abraçando cada parte minha. É um abraço árido. Você consegue imaginar o fato de tentar sentir algum lugar, Maga, fechar os olhos e sentir como se chovesse grãos de areia, a começar devagar, em você e ao seu redor? Você tenta instintivamente, mas não consegue ver nada, Maga, não consegue sentir nada, exceto uma agonia conformada inominável. Você sabe que nunca fui uma pessoa conformada, você imagine. Mas se fosse optável, diria que não é melhor do que não tê-las, as memórias, porque essas eu posso inventá-las. Imagens são facilmente inventáveis, Maga, lugares, pessoas… você sabe. A gente idealiza o que a gente quiser, à base do ver. Os olhos nos enganam habitualmente.

Mas e sentir? Você, por exemplo, disse que nunca gostei de você, Maga. Vê como você não conseguiu inventar um sentir diferente? É uma sensação traiçoeira, essa, porque todo lugar poderia ser a nossa casa, mas algo em você trava e trava você, algo que não quer que você se mova. Esse algo prega peças em você, Maga, faz você acreditar que esse mundo enorme do lado de fora é que está realmente esmagando tudo em você por dentro, mas na verdade é tudo dentro que se contorce, que chacoalha, e nem se esmaga não, só finge que. Aí você pensa na sensação. É o seu fim, Maga, e será o seu fim por vezes, sempre que for possível esse jogo insensato de sentir. Inevita-se.

Sendo seu marfim,

Desbotei as cores que criei em mim.

___

(Não continua)

Quando olhei suas paredes riscadas, lembrei daquele filme do qual na verdade nunca esqueci. Nenhum mérito. “Go on, use my body like the pages of a book. Of your book”. Nunca, antes, havia querido me tornar parede, menos ainda a sua parede; aquela outrora branca, insossa, obrigada a acobertar todos os seus lamentos e a compactuar com todas as suas perdições. Você encostaria em mim apenas em um breve desequilíbrio. Iria embora a qualquer momento e eu ficaria imóvel, esperando por você.

Em um momento epifânico, olhei aquele mesmo branco de sempre e não vi mais um vazio que você moldaria. Não parecia mais algo em busca do seu preenchimento. Naquela parede havia não só a memória do que aconteceu, mas o sempre-espaço para as memórias do que ainda iria acontecer. Era uma espécie de Funes, que guardaria tudo. Era uma espécie de Jó, que jamais se lamentaria. Era o seu delírio, Bartleby, do qual você jamais conseguiria escapar. Aquela parede era sua prisão, Sade, na qual você tentaria escrever de todas as maneiras, mas jamais conseguiria preencher completamente.

Você cortou cada fio de cabelo seu pra parecer mais jovem. Você subiu as escadas segurando o corrimão. Subiu vagarosamente, contando os anos, contando nos seus cabelos as coisas que você não fez. “Eu vinha sendo tão responsável… Por que isso tá acontecendo agora?”, você quis me dizer. E ali ao alcance do seu pensamento estavam meus olhos desviantes, como essa irresponsabilidade sua que eu era. Não consegui separar o quanto de bom e de ruim havia na frase dita em silêncio. Você sem palavras era a possibilidade. 

Eu não havia me preparado porque eu já havia dito que, caso eu te esperasse, você jamais viria. Mas até que ponto estar na sua cama foi o meu delírio eu também não sei. Só consegui pensar no seu cabelo cortado, no seu desejo de que ali houvesse um elevador, porque você tinha esquecido a bengala que te dei em casa. Por outro instante minha atenção se desviou pra sua casa. Eu não sabia que almofadas escolher. Só pensava em deitar no seu futuro tapete, aquele com mãos que se cravariam em mim, mudando minha cor, que não me deixariam sequer virar de lado, de tão presa que eu estaria a ele. Eu assim tentando arrastar você comigo. 

No entanto, aqui é sua casa. O que eu faço aqui? Espero você me dizer que está na hora de ir, vendo seu retrato do presente, vendo que eu não sou mais que um embalo de consciência insana, um sopro de não acontecimento. Por isso você não queria dormir enquanto eu estivesse lá, porque você queria achar que foi um sonho. Você queria acordar e poder não me ver do lado, você queria poder tatear cada centímetro da sua cama e não encontrar mais que areia.

Que eu permaneça sonho, foi o seu pedido. As velas se apagaram. 

Always do sober what you said you’d do drunk. That will teach you to keep your mouth shut.
Ernest Hemingway

In your sour lines of sorrow

In your angry signs of tomorrow

I wish I could write you out of me

‘Cause you’re only close when you’re a glide

‘Cause you’re only true when you’re denied

Creio que nessa quinta-feira de dezembro, eu tinha pensado em atravessar para a margem direita do Sena e beber vinho num pequeno bar da rue des Lombards, onde Mme. Léonie sempre me olha a palma da mão e me anuncia viagens e surpresas. Nunca levei você para Mme. Léonie ler a sua palma da mão, pois na certa tive medo de que ela lesse na sua mão alguma verdade sobre mim, já que você sempre foi um espelho terrível, uma espantosa máquina de reprodução e aquilo a que chamávamos o nosso amor era talvez eu estar de pé diante de você, com uma flor amarela na mão e você com duas velas verdes, enquanto o vento soprava contra os nossos rostos uma lenta chuva de renúncias e de despedidas e passagens de metrô.
Julio Cortázar, in: O jogo da amarelinha

E eu sei que, quando você quer que lhe toquem a alma, não é a mim que você pede, Maga. Eu sei que, quando você quer seguir, não é de mim que você quer ir embora, porque você sequer chegou. Eu sei que quando sinto seu cheiro é como se eu não estivesse ali. Quando eu vejo você de perto, como um ciclope, você queria outro calor. O seu desejo é o passado, Maga. O seu desejo é o que não tem volta. Eu espero pelo futuro, Maga, pelo futuro em que você vai querer aquele eu, ido como o vento. Eu não posso fazer mais nada além de esperar, Maga, porque você não me deu outra escolha. Eu procurei aquela nesga que você parecia ter me dado, mas fiquei preso no meio dela. Minhas pernas estão presas, Maga, na nesga que você fechou, e eu não posso mais correr em sua direção. Me tire daqui, Maga, ou me espere quando já não houver mais nada.